sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ENTREVISTA | JAIRO WERNER JÚNIOR

“MODELO DE TRATAMENTO TRADICIONAL NÃO FUNCIONA PARA O CRACK

Publicado no JORNAL DA ALERJ 235 – páginas 6, 7 e 8 (http://bit.ly/jornal235)

Psiquiatra com mais de 15 anos de experiência no tratamento de usuários de drogas e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jairo Werner Júnior é taxativo ao falar do problema do crackno País. Segundo ele, “é preciso uma grande articulação científica, social e política para enfrentar este problema”. De acordo com o especialista, esta diferença em relação às outras drogas acontece porque, apesar de ter o mesmo princípio ativo da cocaína, o crack tem um poder de ação muito maior. “Por ser fumado, ele entra no sistema arterial e vai direto para o cérebro; já a cocaína é metabolizada e chega ao cérebro gradualmente”, relata.


Com a mesma quantidade de princípio ativo da cocaína, o crack atinge uma concentração até cinco vezes maior no cérebro em menos de um quinto do tempo, gerando um efeito muito mais potente e menos duradouro, o que faz com que a pessoa já queira usar de novo. Por isso, a frequência do uso aumenta muito e o usuário se vicia mais rápido e tem mais dificuldade para largar a droga”, explica. “Precisamos investir em pesquisa, formação e capacitação de pessoas para atuar de forma eficaz na prevenção e tratamento contra o crack”, defende.

Especialista no tratamento de crianças e adolescentes usuárias de drogas e álcool, Jairo atualmente é coordenador do projeto Restaurando Esperanças, uma parceria entre a UFF e a Fundação para a Infância e Adolescência (FIA), que, atualmente, atende cerca de 50 crianças. “No projeto, trabalhamos com alguns polos avançados e fazemos um atendimento ambulatorial. Temos uma equipe interdisciplinar, que envolve diversos profissionais como assistentes sociais, médicos, psicólogos, ex-usuários, grupos de teatro e outras atividades, porque o crack não é uma questão só de saúde, ele é também o sintoma de um problema social”, assegura.

Segundo Werner, o fundamental para a recuperação dos usuários é o restabelecimento de vínculos, seja com a família ou com grupos como o de teatro que faz parte do projeto. “Além disso, é muito importante ter abrigos em que possamos proteger esses usuários, sem o risco da estigmatização e da formação de guetos”, opina.

Leia a entrevista do professor e psiquiatra Jairo Werner Júnior, doutor em Saúde Mental, abaixo:

É difícil encontrar pessoas que sejam ex-usuárias de crack e tenham se recuperado totalmente. Na sua experiência na área, você conhece casos de sucesso?
É muito difícil, mas eu já tive alguns pacientes que se recuperaram desta droga. Tive um paciente que saiu da cracolândia de São Paulo depois de passar dois anos na rua e, hoje, coordena uma comunidade terapêutica. Ele foi morar em São Paulo, e por problemas com a família foi para a cracolândia. Um dia o irmão achou ele na rua e conseguiu trazê-lo ao Rio, onde ele passou por comunidades terapêuticas e foi tratado.

Qual a principal diferença do crack em relação à cocaína, droga que já está difundida na sociedade há mais tempo?
O crack e a cocaína são a mesma coisa em termos de princípio ativo. Mas no caso do primeiro, você tem circulação mais curta no organismo, porque o vapor entra no pulmão, onde é absorvido pelos alvéolos, entra no sangue e faz um trajeto curto direto para o cérebro. Quando a cocaína é cheirada, é absorvida pela mucosa nasal, entra na corrente circulatória, vai para o sistema geral do organismo, e vai perdendo potência até chegar no cérebro. O circuito é muito maior. Temos na cocaína cheirada uma concentração menor do princípio ativo atuando no cérebro.

Esta diferença é o que faz o crack viciar tanto e ser tão de largar?
Sim. Como o efeito é muito rápido, a concentração máxima chega em cinco minutos e, depois, começa a cair. Com isso, a pessoa já quer usar de novo, fazendo com que a frequência do uso seja aumentada, consequentemente o tempo de se tornar dependente da droga se reduz muito.

E quais são os problemas causados pelo crack na pessoa que usa com frequência?
Os efeitos decorrentes do princípio ativo são praticamente iguais aos da cocaína. Um deles é o infarto, que, principalmente em jovens, é quase sempre decorrente do uso de cocaína, porque ela pode causar inflamação nas artérias. Tive paciente que já tinha parado de usar a droga e acabou falecendo de infarto porque as artérias estavam inflamadas.

Qual a importância da família neste processo de recuperação?
Uma das coisas que é mais importante é a referência, e a família normalmente é ou deveria ser a melhor delas. Quando não há esta família, temos que desenvolver programas em que o dependente possa se sentir acolhido, orientado, ter uma referência. Temos visto que muitas famílias perderam a possibilidade de influenciar seus filhos, até porque muitos também têm problemas com drogas ou outras situações graves.

Em termos gerais, quais são os maiores desafios para enfrentar este problema de forma consistente?
Um grande problema é não termos muitas pessoas formadas adequadamente para lidar com o assunto, pois o crack não envolve só a substância, mas um complexo social muito grave. Ele é sintoma de mazelas sociais, falta de acesso a serviços, famílias sem suporte.. Você não pode pensar só no atendimento médico, mas em toda a rede social que envolve o usuário. É claro que deve haver um atendimento na ponta, mas precisamos de uma abordagem mais ampla, com a compreensão da complexidade social envolvida nesta questão. E é isso que buscamos fazer na UFF, de uma forma pequena, dentro das nossas possibilidades: dar assistência às famílias. O nosso eixo principal é a interação tanto do profissional com os jovens como dos jovens entre si.

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